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Home Archive for junho 2017
A chuva caía.
O céu estava cinza.
A neblina vinha.
E eu ali, esperando ele passar.
O frio crescia.
A rua ficava vazia.
E eu ali, esperando vê-lo para a noite melhorar.
As pessoas me encaravam. Quem imaginaria que uma moradora de rua se apaixonaria.
Eu sempre observava.
Ele voltava da faculdade às 23h, ia trabalhar às 9h, sei dos horários porque sempre estava ali.
Já estava acordada faz tempo procurando abrigo enquanto ele corria para pegar o ônibus todas as manhãs.
Não sabia o seu nome, sua idade ou sequer seu telefone.
Sabia que ele era aquilo que eu sempre sonhei.
Quando ele aparecia, meu coração disparava, minhas mãos tremiam.
Mas ele não sabia que eu existia.
Enquanto ele estudava, trabalhava.
Eu juntava minhas latas, com alguns trocados comprava comida, na maioria das vezes nem isso tinha.
Essa era minha vida.
Talvez eu o amava desejando a vida que ele tinha, trabalhar e estudar era tudo que eu queria.
Vi ele crescer ali da rua, enquanto ele jamais olhou para os lados para saber quem estava nas ruas.
Jamais me ajudou com um prato de comida, mas não posso cobrar isso dele e nem de ninguém, ele estava ocupado demais para olhar para os lados, parar e observar que eu estava ali e que meu coração era dele, se ele quisesse.
Mas não queria.
Sonho meu imaginar tal coisa, como uma moradora de rua ficaria com alguém assim?
Até que fim ele aprendeu a dirigir, teve seu carro, saia mais, estudava menos.
Sempre ignorava quem estava na rua.
Meu coração despedaçou em um dia chuvoso. Estava frio, eu sem coberta, sem casa, sem blusa, sem comida.
E ele estava vindo com o seu carro, foi de propósito tenho certeza disso. Ele passou em uma poça de água e molhou nós, moradores de rua e saiu rindo.
Achei que ele era o amor da minha vida, mas ele mudou tanto que já não o reconhecia.
Depois daquele banho de água suja peguei pneumonia e assim fui morrendo aos poucos sozinha.
Porque sabe... Morador de rua não tem hospital, muito menos família, nem casa e nem comida.
Até que me acharam na rua já toda gelada e sem vida.
Quem diria que a pessoa que mais amava e admirava me mataria.

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